domingo, 20 de abril de 2014

[História] Como Angelo e Nerissa se Conheceram

Depois de mais de dez anos, Angelo estava finalmente de volta à Itália. Dessa vez, acompanhado do irmão mais novo e de um enorme peso no peito.
Sua avó, quem havia cuidado dele a vida toda no Brasil, falecera subitamente durante uma noite qualquer - ao que tudo indicava, enquanto dormia.

Era desejo da avó que fosse enterrada na terra natal, e por isso Angelo e seu irmão estavam agora na enorme casa de campo do novo marido de sua mãe.

- Angelo, Nico... O que estão fazendo aqui dentro? Olhem que dia mais lindo! Deviam aproveitar um pouco o sol e passear por aí. Vocês estão no sul da Itália, o lugar mais lindo do país.

"Lugar mais lindo? Quando eu era criança, só lembro de te ouvir reclamando que era o 'mais pobre'." Angelo pensou, amargurado. Sentia raiva do modo como aquela mulher agia, parecia não ter dado a mínima para a morte da própria mãe.  "Agora que você deu o golpe do baú nesse babaca e tá aqui num casarão, você acha o lugar lindo, né?"

Notando que nenhum dos meninos iria lhe responder, ela saiu do quarto, revirando os olhos como se não entendesse porque estavam tão desanimados.

Mas ao notar o ar deprimido do irmão, Angelo mudou de ideia e achou que seria melhor realmente tirá-lo dali.

- Ei, Nico... Quer ver as macieiras? Eu te levanto e você pega algumas do próprio pé!

-  E vai dar pra gente comer as maçãs assim? Na hora? - o pequeno pareceu confuso. A pobre criança estava tão acostumada com a vida na cidade que nem lhe passava pela cabeça que as frutas vinham diretamente das árvores, prontas para o consumo imediato.

- Claro! Vamos lá.

***

De fato, sair da casa havia feito bem ao irmão. Nico correu animado pelo meio do mato e até arriscou subir em árvores, mostrando ser tão selvagem quanto o próprio Angelo era quando criança e morava no sul da Itália.

Distraindo-se do irmão por alguns minutos, Angelo sentou na sombra de uma árvore. Mas levantou logo em seguida ao ver uma moça desconhecida andando ao longe, por entre as nespereiras.

- Que foi, Angel? - Nico se assustou ao ver o outro levantando num salto. - Sentou num formigueiro, é?

- Olha lá... - apontou para a garota. - A gente não conhece ela, né? Não é nenhuma das empregadas da casa... Nem se veste como uma, também. - mesmo longe, dava pra perceber o quanto o vestido floral e rendado da menina era bonito.

- Amor à primeira vista! - Nico riu, pulando alegre ao redor do irmão. - Tá apaixonado!

- Cala a boca, nem conheço ela... - Angelo riu também, mas não podia negar a atração súbita que havia sentido. - Mas que tal conhecermos? - puxando o irmãozinho pela mão, seguiu em direção à desconhecida.

Não foi difícil alcançá-la, pois ela havia parado de andar e estava de cócoras, recolhendo flores e guardando-as na cesta que carregava.

- Olá! Você mora aqui por perto? - atirado como sempre, Angelo se aproximou de repente já mostrando seu melhor sorriso.

A menina levantou o rosto e olhou seriamente para Angelo, ainda que parecesse um tanto tímida.

- Preciso ir!- disse rapidamente, com o rosto avermelhado. Ficando de pé, correu para longe dos irmãos.

- Espera!

- É... ela fugiu de você. - Nico comentou, segurando o riso.

- Ela é esquisita, né...? O cabelo dela era cinza, ou foi só impressão minha?

- Acho que era meio cinza, sim!

***

"Ela é estranha, mas é também estranhamente bonita."
Já era noite, e Angelo ainda não conseguia parar de pensar na menina. Nico dormia ao seu lado, na segunda cama de solteiro do quarto de hóspedes.

"Só vamos ficar mais um dia na Itália... Se eu não a encontrar de novo ainda hoje ou no máximo amanhã antes do voo de volta do Brasil, acho que nunca mais a verei na vida."

*

Enquanto isso, não tão longe da casa onde os irmãos Bertoncinni estavam, a garota do cabelo cinza discutia mais uma vez com a sua "guardiã".

- Para de negar! Eu sei que foi você! Você armou alguma coisa, não foi? - ela não desistia de questionar a velhinha, que bufava impaciente.

- Não fiz nada, Nerissa! Sei lá quem é o garoto que você encontrou. Você disse que não queria nenhum feitiço romântico que te ajudasse a encontrar um homem, então eu não fiz nada.

- Nooooossa! Que coincidência, então! Nós temos uma discussão porque você acha que eu devia "sair para conhecer o mundo" - disse fazendo aspas com os dedos - e para "me apaixonar", e de repente, boom! Vinte minutos depois tem um doido vindo na minha direção todo sorridente.

- Eu diria que isso é o destino. - sentando-se à mesa simples de madeira, a senhora tomou um gole do chá recém preparado.

- Destino... Yubaba, eu sei bem o quanto a senhora gosta de manipular o destino. - balançou a cabeça, cansada. - Vou sair um pouco, preciso dar uma arejada na cabeça, sei lá.

*

- Isso é muita burrice minha, quem disse que ela vai simplesmente aparecer por aqui de novo? - Angelo falava sozinho, enquanto andava ao redor do lugar onde tinha visto a garota.

"Ah, não acredito. Esse garoto não ficou aqui o tempo inteiro me esperando voltar, né?" - Nerissa pensou ao vê-lo.

- Ah! Aí está você. - ela não conseguiu sair dali antes de ser notada.

- Hm... Você estava me procurando?

A leve frieza na voz de Nerissa fez com que Angelo fechasse um pouco o sorriso e se sentisse sem graça.

- Não... Quer dizer, mais ou menos... Mas não fuja! - disse depressa. - Eu só queria perguntar seu nome.

- Me esperou no mesmo lugar por mais de três horas só pra saber meu nome? - ela perguntou, levantando uma sobrancelha.

- Não, claro que não! - riu pra disfarçar o constrangimento. - Eu só voltei agora... Mas que bom que te encontrei logo.

- Nerissa. - ela respondeu, finalmente sorrindo.

Mas aquele sorriso misterioso inquietava Angelo.

- Meu nome é Angelo. Aquele que estava comigo antes é meu irmão, Niccolò. Será que... Você aceitaria andar um pouco comigo por aí, pra conversarmos?

Aceitando o convite, Nerissa começou a simpatizar mais com Angelo quando notou que na verdade ele parecia estar mais tímido que ela.

- Hm... Você mora aqui perto então, né?

- Sim. E você?

- Estou naquele casarão perto de um lago, mais a frente daquelas macieiras... Vê? - apontou.

- Ah, sim. É uma casa muito bonita, já passei por perto dela algumas vezes.

Mais um longo momento silencioso se passou, e Angelo se estranhava por não estar sabendo o que dizer. Normalmente ele lidava bem com garotas e não tinha problemas em conhecer gente nova. Mas a presença de Nerissa o deixava um tanto nervoso.

- Desculpa por isso. - ele riu, balançando a cabeça. - Eu sei que devo estar parecendo meio esquisito, e... Normalmente não sou assim.

- Hm?

- É... Não quero que você me ache estranho. Eu só queria te conhecer mesmo... Fiquei curioso quando te vi andando hoje à tarde.

- Vamos nos sentar ali, então. - ela indicou um banco rústico feito a partir de um tronco mais a frente.

- Você não está atrás de mim a mando da velha, não é? - ela perguntou diretamente, assim que sentaram.

- Velha? O que? - mostrou-se genuinamente confuso.

- Yubaba, minha mentora e com quem moro... Bem, se você não a conhece, fico mais tranquila. - suspirou profundamente. - Essa doida tá com mania de tentar me arrumar um namorado.

Finalmente sentindo o clima se tornar mais descontraído, Angelo riu e começou a relaxar. A partir daí, conversaram normalmente, cada um falando sobre suas vidas.
Na verdade, quem mais falava era Angelo. Mas Nerissa era uma ótima ouvinte e fazia comentários inteligentes.

- Sinto muito pela sua avó. Se eu soubesse que você e seu irmão tinham ido ao enterro dela hoje cedo... Eu não teria sido tão fria com vocês. Desculpe.

- Tudo bem... - fez uma longa pausa, olhando distraído para a lua. Dessa vez, o silêncio não era mais algo que pairava desconfortavelmente entre os dois. - Eu só fico pensando como vai ser quando eu voltar pro Brasil, sabe? Ela cuidou de mim a vida toda... E agora vou estar sozinho cuidando da casa. E do meu irmão...

A garota se surpreendeu ao notar que Angelo parecia estar chorando.
Ainda que estivesse escuro, dava para perceber pelo modo como ele respirava e passava a mão nos olhos.

Nerissa segurou a mão dele, e o encarou diretamente nos olhos avermelhados.

- Ei, vai ficar tudo bem. - ela disse calmamente.


Sorrindo desanimadamente, Angelo concordou com um aceno de cabeça.

Os dois logo voltaram a conversar, e os minutos rapidamente se transformaram em horas.
Ele não se preocupava em voltar para a casa, pois tinha certeza de que a mãe nem havia notado sua saída. Quanto a Nico, deixara um rápido bilhete ao lado de sua cama avisando que sairia em busca da menina de cabelo cinza.

Mas ainda que a intimidade entre os dois houvesse crescido de forma anormalmente rápida e que ambos estivessem tão entretidos um com o outro a ponto de nem notarem que já havia passado da meia noite, Angelo conscientemente evitava falar sobre sua volta para o Brasil.

Até que ela lhe fez a pergunta que temia.

- E então, por quanto tempo vocês ainda vão ficar aqui? Se o Nico gosta tanto de gatos como você disse, ele realmente precisa ir lá em casa! Ainda mais que nasceu uma ninhada nova... - comentava animada.

- Então... - olhou para baixo, pois sabia que ver o sorriso dela o faria perder a coragem. - Vamos voltar amanhã mesmo. E não faço ideia de quando eu poderia vir a Itália de novo, porque não temos dinheiro nenhum. Nossa mãe não envia quase nada, mal dá pras contas e comida...

- Amanhã? - ela repetiu, descrente e com a decepção nítida no tom de voz.

- Mas... Eu tive uma ideia. - Angelo disse impulsivamente. - Vem pro Brasil com a gente!

Nerissa arregalou os olhos, surpresa com a proposta.
Mas estava ainda mais surpresa por ter se sentido inclinada a aceitá-la imediatamente.

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