Depois de mais de dez anos, Angelo estava finalmente de
volta à Itália. Dessa vez, acompanhado do irmão mais novo e de um enorme peso
no peito.
Sua avó, quem havia cuidado dele a vida toda no Brasil,
falecera subitamente durante uma noite qualquer - ao que tudo indicava,
enquanto dormia.
Era desejo da avó que fosse enterrada na terra natal, e
por isso Angelo e seu irmão estavam agora na enorme casa de campo do novo
marido de sua mãe.
- Angelo, Nico... O que estão fazendo aqui dentro? Olhem
que dia mais lindo! Deviam aproveitar um pouco o sol e passear por aí. Vocês
estão no sul da Itália, o lugar mais lindo do país.
"Lugar mais lindo? Quando eu era criança, só lembro
de te ouvir reclamando que era o 'mais pobre'." Angelo pensou, amargurado.
Sentia raiva do modo como aquela mulher agia, parecia não ter dado a mínima
para a morte da própria mãe. "Agora
que você deu o golpe do baú nesse babaca e tá aqui num casarão, você acha o
lugar lindo, né?"
Notando que nenhum dos meninos iria lhe responder, ela saiu
do quarto, revirando os olhos como se não entendesse porque estavam tão
desanimados.
Mas ao notar o ar deprimido do irmão, Angelo mudou de
ideia e achou que seria melhor realmente tirá-lo dali.
- Ei, Nico... Quer ver as macieiras? Eu te levanto e você pega algumas do próprio pé!
- E vai dar pra
gente comer as maçãs assim? Na hora? - o pequeno pareceu confuso. A pobre
criança estava tão acostumada com a vida na cidade que nem lhe passava pela
cabeça que as frutas vinham diretamente das árvores, prontas para o consumo
imediato.
- Claro! Vamos lá.
***
De fato, sair da casa havia feito bem ao irmão. Nico
correu animado pelo meio do mato e até arriscou subir em árvores, mostrando ser
tão selvagem quanto o próprio Angelo era quando criança e morava no sul da
Itália.
Distraindo-se do irmão por alguns minutos, Angelo sentou
na sombra de uma árvore. Mas levantou logo em seguida ao ver uma moça
desconhecida andando ao longe, por entre as nespereiras.
- Que foi, Angel? - Nico se assustou ao ver o outro
levantando num salto. - Sentou num formigueiro, é?
- Olha lá... - apontou para a garota. - A gente não
conhece ela, né? Não é nenhuma das empregadas da casa... Nem se veste como uma,
também. - mesmo longe, dava pra perceber o quanto o vestido floral e rendado da
menina era bonito.
- Amor à primeira vista! - Nico riu, pulando alegre ao
redor do irmão. - Tá apaixonado!
- Cala a boca, nem conheço ela... - Angelo riu também,
mas não podia negar a atração súbita que havia sentido. - Mas que tal
conhecermos? - puxando o irmãozinho pela mão, seguiu em direção à desconhecida.
Não foi difícil alcançá-la, pois ela havia parado de
andar e estava de cócoras, recolhendo flores e guardando-as na cesta que
carregava.
- Olá! Você mora aqui por perto? - atirado como sempre, Angelo se aproximou de repente já mostrando
seu melhor sorriso.
A menina levantou o rosto e olhou seriamente para Angelo,
ainda que parecesse um tanto tímida.
- Preciso ir!- disse rapidamente, com o rosto
avermelhado. Ficando de pé, correu para longe dos irmãos.
- Espera!
- É... ela fugiu de você. - Nico comentou, segurando o
riso.
- Ela é esquisita, né...? O cabelo dela era cinza, ou foi
só impressão minha?
- Acho que era meio cinza, sim!
***
"Ela é estranha, mas é também estranhamente
bonita."
Já era noite, e Angelo ainda não conseguia parar de
pensar na menina. Nico dormia ao seu lado, na segunda cama de solteiro do
quarto de hóspedes.
"Só vamos ficar mais um dia na Itália... Se eu não a
encontrar de novo ainda hoje ou no máximo amanhã antes do voo de volta do
Brasil, acho que nunca mais a verei na vida."
*
Enquanto isso, não tão longe da casa onde os irmãos
Bertoncinni estavam, a garota do cabelo cinza discutia mais uma vez com a sua
"guardiã".
- Para de negar! Eu sei que foi você! Você armou alguma
coisa, não foi? - ela não desistia de questionar a velhinha, que bufava
impaciente.
- Não fiz nada, Nerissa! Sei lá quem é o garoto que você
encontrou. Você disse que não queria nenhum feitiço romântico que te ajudasse a
encontrar um homem, então eu não fiz nada.
- Nooooossa! Que coincidência, então! Nós temos uma
discussão porque você acha que eu devia "sair para conhecer o mundo" -
disse fazendo aspas com os dedos - e para "me apaixonar", e de
repente, boom! Vinte minutos depois tem um doido vindo na minha direção todo
sorridente.
- Eu diria que isso é o destino. - sentando-se à mesa
simples de madeira, a senhora tomou um gole do chá recém preparado.
- Destino... Yubaba, eu sei bem o quanto a senhora gosta
de manipular o destino. - balançou a cabeça, cansada. - Vou sair um pouco,
preciso dar uma arejada na cabeça, sei lá.
*
- Isso é muita burrice minha, quem disse que ela vai
simplesmente aparecer por aqui de novo? - Angelo falava sozinho, enquanto
andava ao redor do lugar onde tinha visto a garota.
"Ah, não acredito. Esse garoto não ficou aqui o
tempo inteiro me esperando voltar, né?" - Nerissa pensou ao vê-lo.
- Ah! Aí está você. - ela não conseguiu sair dali antes
de ser notada.
- Hm... Você estava me procurando?
A leve frieza na voz de Nerissa fez com que Angelo
fechasse um pouco o sorriso e se sentisse sem graça.
- Não... Quer dizer, mais ou menos... Mas não fuja! -
disse depressa. - Eu só queria perguntar seu nome.
- Me esperou no mesmo lugar por mais de três horas só pra
saber meu nome? - ela perguntou, levantando uma sobrancelha.
- Não, claro que não! - riu pra disfarçar o
constrangimento. - Eu só voltei agora... Mas que bom que te encontrei logo.
- Nerissa. - ela respondeu, finalmente sorrindo.
Mas aquele sorriso misterioso inquietava Angelo.
- Meu nome é Angelo. Aquele que estava comigo antes é meu
irmão, Niccolò. Será que... Você aceitaria andar um pouco comigo por aí, pra
conversarmos?
Aceitando o convite, Nerissa começou a simpatizar mais
com Angelo quando notou que na verdade ele parecia estar mais tímido que ela.
- Hm... Você mora aqui perto então, né?
- Sim. E você?
- Estou naquele casarão perto de um lago, mais a frente
daquelas macieiras... Vê? - apontou.
- Ah, sim. É uma casa muito bonita, já passei por perto
dela algumas vezes.
Mais um longo momento silencioso se passou, e Angelo se
estranhava por não estar sabendo o que dizer. Normalmente ele lidava bem com
garotas e não tinha problemas em conhecer gente nova. Mas a presença de Nerissa
o deixava um tanto nervoso.
- Desculpa por isso. - ele riu, balançando a cabeça. - Eu
sei que devo estar parecendo meio esquisito, e... Normalmente não sou assim.
- Hm?
- É... Não quero que você me ache estranho. Eu só queria
te conhecer mesmo... Fiquei curioso quando te vi andando hoje à tarde.
- Vamos nos sentar ali, então. - ela indicou um banco
rústico feito a partir de um tronco mais a frente.
- Você não está atrás de mim a mando da velha, não é? -
ela perguntou diretamente, assim que sentaram.
- Velha? O que? - mostrou-se genuinamente confuso.
- Yubaba, minha mentora e com quem moro... Bem, se você
não a conhece, fico mais tranquila. - suspirou profundamente. - Essa doida tá
com mania de tentar me arrumar um namorado.
Finalmente sentindo o clima se tornar mais descontraído,
Angelo riu e começou a relaxar. A partir daí, conversaram normalmente, cada um
falando sobre suas vidas.
Na verdade, quem mais falava era Angelo. Mas Nerissa era
uma ótima ouvinte e fazia comentários inteligentes.
- Sinto muito pela sua avó. Se eu soubesse que você e seu
irmão tinham ido ao enterro dela hoje cedo... Eu não teria sido tão fria com
vocês. Desculpe.
- Tudo bem... - fez uma longa pausa, olhando distraído
para a lua. Dessa vez, o silêncio não era mais algo que pairava
desconfortavelmente entre os dois. - Eu só fico pensando como vai ser quando eu
voltar pro Brasil, sabe? Ela cuidou de mim a vida toda... E agora vou estar
sozinho cuidando da casa. E do meu irmão...
A garota se surpreendeu ao notar que Angelo parecia estar
chorando.
Ainda que estivesse escuro, dava para perceber pelo modo
como ele respirava e passava a mão nos olhos.
Nerissa segurou a mão dele, e o encarou diretamente nos
olhos avermelhados.
- Ei, vai ficar tudo bem. - ela disse calmamente.
Sorrindo desanimadamente, Angelo concordou com um aceno de
cabeça.
Os dois logo voltaram a conversar, e os minutos
rapidamente se transformaram em horas.
Ele não se preocupava em voltar para a casa, pois tinha
certeza de que a mãe nem havia notado sua saída. Quanto a Nico, deixara um rápido
bilhete ao lado de sua cama avisando que sairia em busca da menina de cabelo
cinza.
Mas ainda que a intimidade entre os dois houvesse
crescido de forma anormalmente rápida e que ambos estivessem tão entretidos um
com o outro a ponto de nem notarem que já havia passado da meia noite, Angelo
conscientemente evitava falar sobre sua volta para o Brasil.
Até que ela lhe fez a pergunta que temia.
- E então, por quanto tempo vocês ainda vão ficar aqui?
Se o Nico gosta tanto de gatos como você disse, ele realmente precisa ir lá em
casa! Ainda mais que nasceu uma ninhada nova... - comentava animada.
- Então... - olhou para baixo, pois sabia que ver o
sorriso dela o faria perder a coragem. - Vamos voltar amanhã mesmo. E não faço
ideia de quando eu poderia vir a Itália de novo, porque não temos dinheiro
nenhum. Nossa mãe não envia quase nada, mal dá pras contas e comida...
- Amanhã? - ela repetiu, descrente e com a decepção
nítida no tom de voz.
- Mas... Eu tive uma ideia. - Angelo disse
impulsivamente. - Vem pro Brasil com a gente!
Nerissa arregalou os olhos, surpresa com a proposta.
Mas estava ainda mais surpresa por ter se sentido
inclinada a aceitá-la imediatamente.
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